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  • Sim, eu sou.

    Durante muitos anos tive medo de dormir porque tinha pesadelos. Era uma criança tímida, superprotegida por minha mãe, que ao mesmo tempo não sabia me ajudar nos meus medos e pesadelos. Minha distração, nesse tempo, era ler, ouvir música e escrever. Acreditava que um dia poderia ser uma escritora de histórias em quadrinho ou somente escritora, mas nas vezes que brincava com minha bonecas o único que conseguia projetar para a boneca que me representava era a função de secretaria. Era como se me fosse impossível pensar algo além, não pensava em nenhuma profissão que me levasse a estudos e altos reconhecimentos. Eu era a secretaria que organizava, que administrava e que no final o chefe se apaixonava, um amor que eu não conhecia na minha casa.

    Na vida real tudo foi diferente, estudei arquitetura, mas a verdade que sempre escondo é que não pude me formar, por falta de dinheiro, por falta de entusiasmo e por falta de um rumo pessoal na vida. Deixei arquitetura no quarto ano e fiz moda, e só não me formei porque não tive dinheiro para pagar o final do curso. Mas finalizei as aulas e, antes do final já trabalhava com um dos meus professores e daí segui a vida.

    No amor, vaguei alguns anos entre dois amores que não se concretizaram da forma que eu desejava até que um dia encontrei o que hoje é meu par por mais de vinte anos. Não foi amor a primeira vista, mas foi uma chance a primeira vista. Ele parecia ser diferente de todos os outros e, por isso, dei a chance de que fizesse parte da minha vida e quando menos percebemos estávamos juntos há um ano e fomos morar juntos, por dificuldades familiares. Não foi uma definição, muito menos algo planejado, foi uma solução dada a um problema que surgiu e que logo depois gerou outro problema e demos outra solução. Hoje, mais de vinte anos depois, temos uma vida repleta de companheirismo e amor, não de cinema, mas bom de viver. Se olho para trás, vejo quantas dificuldades passamos ao longo deste período e o mais bonito, superamos todas as nossas dificuldades juntos, um apoiando o outro, mesmo quando discordamos um do outro.

    Tenho a ideia de que um dia me disseram que eu não poderia ter isso, mas tenho. Tenho um par, que dizer que é meu marido é pouco, ele é meu amigo, meu melhor amigo. Meu amante, me colo, meu apoio e o pai do meu filho. E tenho claro que ele também acredita que sou essa pessoa na sua vida. Tenho algo inédito no mundo atual? Talvez. Não deveria ser assim. Como conseguimos? Não sei responder, mas algumas palavras me vêm a cabeça, compreensão, paciência, dedicação e claro está, amor.

    Um ponto importante é dizer o que é o amor para mim. Na juventude pensava em amor e me vinha uma cena de cinema a cabeça, Julia Roberts e Robert Geere. Sim, totalmente conto de fadas e cúpidos. Não sei em que momento me dei conta que amor é muito mais do que isso, na realidade eu confundia amor com paixão, com tesão.  Na minha vida o amor esteve vinculado, inicialmente, à necessidade de ser aceita por outra pessoa, eu sempre fui muito tímida e tinha a estima destroçada por coisas que me aconteceram na infância e essa necessidade era brutal, não acreditava que alguém poderia olhar e se interessar por mim e assim comecei minha vida amorosa, precisando de uma bengala.

    Meu primeiro amor, foi um vizinho, namoramos por muito pouco tempo e terminamos por uma brincadeira de mal gosto que não foi bem interpretada e nem perdoada por ele. Como eu sofri.

    Meu segundo amor, foi um colega de faculdade. Ele era o mais similar que podia chegar da minha figura paterna, que foi ausente por tantos anos na minha vida. Namoramos por ano e meio e sofri muito além da conta quando terminamos. Eu não entendia o fim daquela relação e estava totalmente dependente a ter a minha bengala de apoio por ano e meio, tropecei e cai. Foi o que aconteceu quando terminamos.

    O tempo passou, muitos anos, um largo ciclo de sete anos, sem amor, até que começaram a aparecer um que outro flerte, nada sério, nada tão agradável, até que surgiu o que hoje é meu par e que me ensinou o que é amar de verdade. Ele também não sabia o que era amar, aprendemos juntos, cada um reconhecendo seus limites e suas razões por seguir, sem palavras, sem olhares e com entregas. Aprendemos juntos e não pense que somos bengala um do outro, não. Claro está que sofreremos muito com a perda um do outro, mas temos claro que essa perda será pela vida e entendemos que é parte do nosso crescimento e que nos encontraremos lá no outro plano da vida.

    Que quero dizer com tudo isso? Por que cheguei a esse assunto? Não tenho ideia, escrevi o que meu coração pedia, mensagens diretas do coração aos dedos pousados no teclado do computador. Deixei rolar e saiu o amor. Lembro agora que na juventude eu pintava e, em general, meus trabalhos tinham coração, alguns vistos outros não, um deles até queimei, era um enorme coração vermelho sangrento no centro de uma tela preta, que depois taquei fogo gradualmente e deixei os rastros do sangue, do rasgado, do queimado em uma tela negra, com um ponto de luz que indicava um possível caminho. Penso nisso tudo e está tão longe de mim hoje, que parece ser de outra pessoa, outra vida. Os anos, a experiência vivida e a idade, me tornaram muito diferente daquela pessoa. Não me reconheço naquela jovem, não vejo suas paixões, nem seus medos, nem seus sonhos. Mas ao mesmo tempo me reconheço ao cem por cento, vendo a garra que punha em tudo o que fazia e buscava e foi essa vontade desgarradora que me trouxe a esse ponto que estou hoje e estou muito feliz com quem me tornei. Quando falo assim, me vem imediatamente a cabeça o dinheiro que tenho no banco e as minhas dívidas e sei que nesse ponto estou longe do meu objetivo, ou do equilíbrio que preciso, mas uma voz me diz, calma, isso é só dinheiro, isso é só matéria o mais importante é o ser. E, sim, eu sou. Sou feliz com quem sou.

  • Vírus da felicidade

    Virus da felicidadeJosé Mindlin foi advogado, repórter, escritor, empresário e importante bibliófilo brasileiro, filho de imigrantes judeus ucranianos, começou a trabalhar muito cedo, com 16 anos, como repórter num importante jornal de São Paulo. Inquieto, formou-se em direito e advogou por um certo tempo, até que fundou a Metal Leve, empresa de sucesso e referencia no Brasil no setor de peças para o mercado automobilístico. Ao se aposentar, José Mindlin se dedica a colecionar livros antiguos e raros e chega a ter a maior biblioteca pessoal do Brasil. Essa paixão por livros o aproxima da escrita e não a toa, em 2006 ele é eleito Membro da Academia Brasileira de Letras. Também em 2006, ele generosamente doa seus mais de 40mil livros a Biblioteca da Universidade de São Paulo, que passa a ser chamada Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Em 2010 falece aos 95 anos de falência múltipla dos órgãos. Conto um pouco da sua história para que meu leitor possa se orientar, caso não o conheça.

    José Mindlin tinha, como objetivo pessoal, colocar o virus da leitura nas pessoas. Eu não o conheci e também não sabia quem era este personagem da literatura e história empresarial brasileira, busquei saber quem era essa figura, justamente quando me contaram qual era o seu objetivo pessoal. Eu tenho esse virus, será que de alguma forma foi ele o responsável por isso? Os virus são assim, um pega e passa para outro, que vai para outro e mais outro e quando percebemos, milhares de pessoas estão infectadas. Sei que tenho o virus da leitura, da aquisição de livros e da escrita. Gostaria de um dia ser escritora, e seria o maior luxo da minha vida, se pudesse viver da minha escrita, economicamente falando. Mas fato é que, com escrever e ser lida, já me sinto iluminada e, se de alguma forma posso deixar um grão de aprendizado, conhecimento, curiosidade ou emoção ao meu leitor estarei completamente feliz.

    Por muitos anos busquei a felicidade, em coisas, pessoas e comidas. Sem perceber a vida me levou por mais de 20 anos a trabalhar com o papel, com as cores, com a arte. Durante este período, frequentei gráficas, senti o calor das impressoras, o cheiro de química das tintas e vi nascer projetos gráficos de todos os tipos, embalagens, folhetos, mas sempre senti o temblor no corpo ao trazer ao mundo um livro, uma revista ou até mesmo um relatório de empresas. Meu último projeto foi em 2011, numa das principais gráficas do Brasil, quando fui responsável pela impressão de um livro de arte. Recordo como se fosse hoje, a emoção de entrar naquela gráfica e ajudar a parir aquele filho. Guardei por anos esse filho na minha prateleira, até que ao mudar de País, me vi obrigada a me desfazer dele. Esse livro representava a paixão pelo papel, pela tinta, pela arte, pela escrita. Mesmo que minha parte fosse apenas a supervisão gráfica, garantindo o controle de cores e qualidade final do trabalho, eu acolhi a cada trabalho com amor maternal, como se fosse de principio ao fim, meu, só meu. Este trabalho ainda representou um momento forte da minha vida, envolto em tristeza e valentia. Tristeza pois deixava a produção gráfica, que por quase 15 anos era o que tinha me feito conhecida no mercado gráfico e do design carioca. E de valentia, pois sem enxergar de um olho, por um falho médico, viajei para o nordeste brasileiro para acompanhar o que seria o mais lindo trabalho da minha história como produtora gráfica. Ninguém sabia que tinha um olho quase morto, ninguém sabia que aquele trabalho representava o fim de uma carreira e inicio de outra. A porta à sala que eu conhecia e transitava com tanta facilidade se fechava e abria uma outra que eu desconhecia e não sabia onde me levaria. De produtora passei a vender. Não vendia o desconhecido. Não, a vida me levou a vender cadernos, agendas e blocos. Material para que as pessoas pudessem escrever. Eu seguia trabalhando com papel, com cores, com tinta, com projetos gráficos e com a escrita, não impressa, mas permitida. O tempo passou e uma década depois a vida me leva a outra mudança, outra porta que se fecha e outra que se abre. Uma mudança de País e de trabalho. Hoje, completo 3 anos em outro País, por esse tempo estive longe de gráficas e de tudo o que me moveu por tanto tempo. Entrei em depressão e, para sair da depressão, tive que olhar para dentro e para meu passado. Procurei entender que na minha vida não estava bom e o que tinha que mudra. Percebi que o erro foi me afastar do que me alimenta para viver, o papel, as palavras ditas em tinta de impressora, o cheiro do livro velho e do livro novo. Voltei a ler e junto com a leitura agora veio o que era apenas uma memória da infância, a escrita. O vírus da leitura e escrita foi minha salvação, me salvou de uma depressão grave e recurrente. Nem todos os virus são ruins. O vírus da leitura e da escrita me trouxe a felicidade que por tantos anos busquei em outros lugares.

    Hoje completo 3 anos em um novo País. Jamais imaginei que viviría numa cidade mágica no velho continente. Não é o viver aqui que me traz a felicidade, mas aqui descobri simplicidades do viver que não tinha tempo para perceber quando vivia numa grande metrópole brasileira. Hoje, vivo numa cidade que é menor que o bairro que vivia. Demorei muito para perceber que estava doente, que tinha a loucura das grandes metrópoles metida no meu corpo. Não sabia apreciar a vista da janela, não sabia amar o canto matinal do galo e nem o silencio de uma noite estrelada. Hoje, nesta fresca manhã outonal, estou aqui, no meu espaço desordenado pelos tantos livros, todos em um idioma que jamais pensei que fosse entender e me sinto mais viva e feliz que nunca. Enquanto escrevo escuto “Rue Saint-Vicent (Rose blanche) na voz de Yves Montand”  e me sinto mais e mais feliz.  Por muitos anos estive envolta por um mundo que não era o meu, estava ali, mas não me sentia plena e tampouco sabia o que tinha que fazer para me sentir. Essa mesma felicidade que tenho aqui, posso ter em qualquer lugar do mundo, ela está aqui, dentro de mim, ao alcance da minha mão e dos meus olhos. Ainda não enxergo bem, o olho não ficou perfeito, mas nada é perfeito e aprender a viver com a imperfeição da vida é importante. Hoje, quando quero apenas sentir o momento, tiro os óculos que levo até para dormir, tal como fiz agora. Deixo que as palavras passem por meu corpo e cheguem a esse papel, elas tem sua energia e vida, eu sou apenas o fio condutor para que cheguem a outras pessoas.  Ah o virus da leitura! Ah, o virus da escrita! Ah o virus da felicidade!

     

  • Uma cidade com alegre no nome

    felicidadeSe me pergunta quem sou, não sei te responder. Prefiro ficar calada e observar tudo o que passa ao meu redor, sentar nas esquinas e ouvir com atenção a vida de cada uma das pessoas, quem sabe aprendo a viver com elas. Não me ensinaram a viver, por isso sobrevivo.

    Tenho medo de esquecer e ficar cega. Tenho pouco para esquecer, as dores do passado enterrei no fundo de Avalon, lugar em que fui um dia para me libertar das dores, porém quando acordei já não sabia como voltar ali e fiquei perdida nesse mundo.

    Tenho muito por ver, não posso ficar cega. Lembro que uma vez a cegueira bateu a minha porta. Segundo o médico, depois de uma cirurgia, a reação do meu olho não era normal. Eu ficaria mais confortável se ele assumisse o erro médico, uma falha no cálculo. Falta humildade para ser, de verdade, o melhor médico do Rio de Janeiro. Esse tinha a fama de melhor, só não me disseram que tinha o título de Dr Ego. Fiquei 6 meses com pouca visão no olho direito. Dirigi e aprovei cores de um livro de arte, sem ver. Fiz uma terceira cirurgia nesse olho. Hoje, o olho tem personalidade própria, tem múltiplas personalidades. Um olho neurótico.

    Tenho 47 anos e quero viver até os 104. Minha família é composta de mulheres que vivem muito. É o que me contaram, da minha família quem me marcou foram os homens. Dois com o mesmo nome. Sebastião.

    Numa entrevista de trabalho, esta semana, me perguntaram como me vejo daqui a 5 anos. Que pergunta mais clichê, maldita entrevistadora, essa pergunta é mais velha que minha tataravó. Disse que queria seguir trabalhando como comercial e ter meu primeiro livro escrito e publicado. Grande mentira! Não quero ser vendedora, que vida miserável a de um vendedor. A não ser que este venda felicidade e um mundo melhor, mais humano, menos violento e estressante… Salvo este vendedor, todos os outros vendem o fim do mundo, vendem merda, lixo humano. Menti, menti porque preciso sobreviver, pagar as contas que me cobram dia sim e outro também. A mulher percebeu que mentia. Não passei na entrevista. Sem trabalho, como vou sobreviver?

    Ontem tive uma crise. Alguém assumiu meu corpo, minha voz e meus sentimentos e gritou, gritou muito. Falou umas quantas coisas absurdas e xingou, xingou muito. Essa pessoa tinha ódio no coração. Eu não tenho ódio, tenho que perdoar, mas não tenho ódio.

    Gosto de fazer listas. Igual ao Renato Russo, faço listas. A diferença é que as minhas não estão escritas em cadernos e nem serão publicadas como um livro de sucesso. Não quero que as pessoas leiam, por isso as escrevo a fogo na minha mente, na minha memória, deve ser por isso que minha cabeça queima todos os dias e urro de dor. Deve ser por isso que agora tenho falhos de memória, amnésia temporal, disse o médico. Fato é que me perco na rua e na vida. Uma das listas que tenho é das pessoas a quem tenho que perdoar e a primeira, sou eu. A segunda, terceira até a quinta ou décima quinta, sou eu. Depois vem minha mãe e meu pai, não sei em que ordem, nem quantas vezes eles se repetem.

    Quero viver até os 104 anos e morrer com um largo sorriso no rosto, por ter encontrado a paz e alegria verdadeira, em vida. Por ter aprendido a viver. Por isso me reinicio dia-a-dia, esquecendo propositalmente o vivido para fazer tudo novo e melhor. Mas ainda falta me perdoar.

    Um dia pensei que para escrever tinha que sofrer. Um dia entendi que grandes autores eram depressivos, complexos, doentios. Quero romper esta barreira. Clarice Lispector ditava como devia ser a mulher em um lindo livro de capa rosa, não lembro o nome, tinha uma linda edição, isso sim. Um dia descobri que ela sofria, chorava, deprimia e gritava. Ela não era uma mulher como a do seu livro. É o que ficou na minha memória.

    Lembro do meu avô. Ele usava chapéu. Uma vez coloquei seu chapéu na minha cabeça, tampava meu olho. Andei pela casa com os braços estendidos para não tropeçar, acabei encontrando meu avô na cozinha, que tomava seu café da meia manhã. Eu disse: – Vô, olha como estou. Elegante como você!” Ele tirou o chapéu da minha cabeça, pôs na sua e tomou o último gole de seu café. Em seguida pousou a xícara no velho móvel de madeira, pintado de azul, onde minha avó guardava as panelas na enorme cozinha da casa em Pouso Alegre e me chamou para jogar cartas na varanda da casa. Naquela casa existiam lugares emblemáticos para mim; a cadeira de ferro e plástico trançado que meu avô sentava na varanda para ver o jardim, a cadeira de madeira que usava quando estava à mesa da varanda para jogar cartas, seu lugar no sofá e seu lugar na mesa da cozinha. Todos tinham seu cheiro e sua presença. Era um homem de 1,88m. Não sei a cor do seu cabelo, mas sei o cheiro. Aquele mesmo cheiro que estava em todos os lugares emblemáticos daquela casa. Ele morreu sem uma perna, cortaram. Os médicos cortaram, não sei porque. Meu avô não andou mais. Não falou mais. Não jogou mais às cartas. Meu amor por ele sempre existiu, eu não tive chance de dizer isso pra ele. Espero que onde esteja sinta meu amor eterno. Dizem que encarnamos, não sei se ele já teve tempo para isso. Dizem que temos anjo da guarda, eu quero ele como meu anjo da guarda. Dizem que ele foi um homem muito duro, comigo nunca foi, prefiro não saber quem foi este homem. Minha experiência me ensinou que não devemos conhecer a fundo nossos heróis, a decepção pode ser maior que 1,88m.

    Meu avô, um homem com 1,88m, que não sabia ler nem escrever, mas fazia contas melhor que as calculadoras. Tinha as mãos duras de lidar com a terra e os animais. Nunca fez carinho em nenhum filho, em nenhum neto, com exceção de mim. Cuidava de mim, mesmo estando a quase 400km de distância e me vendo 2 vezes ao ano. Ele me ensinou que sua palavra valia mais que tudo. Que sua assinatura, que seu dedo pintado numa folha de papel e que o fio de seu bigode. Ele me ensinou a ser dura e ter valor. Me ensinou a proteger a família. Sua mulher morreu sem pisar num supermercado, sem ir num banco, sem saber dos problemas da família. Ele a mimava, fazia por amor. Ele amava e mimava aquela pequenina mulher de 1,47m, que sempre que tinha desejo de tomar sorvete ele saia escondido a comprar. Ela se lambuzava com seu sorvete de manga, comprado na loja de sorvetes, que tinha no centro de Pouso Alegre.

    Sempre tentei entender porque Pouso Alegre. A cidade não tinha aeroporto, então não tinha como pousar ali, era o que pensava. Será que era pouso de pousar, dormir, pousada? Nasci ali, não vivi ali. Sabia que ali não seria feliz. Era contraditório, uma cidade com alegre onde eu não poderia ser feliz. Foi assim que comecei a buscar a felicidade, tentando entender o nome da cidade que nasci. Acho que eu tinha 3 anos quando essa busca começou.