Tag: Um Amor Impossível

  • Um amor impossível – Capítulo IV

    IV.

    Acredito que minha vida tem fundo sonoro, não uma única música, nem uma única seleção. Escuto de tudo, quase tudo. Sou eclética. Hoje vou de The Police, Every Breath You Take, levei anos para prestar atenção na letra. Coincidência? Não, não acredito em coincidências, sim em atrações do subconsciente. Enquanto escuto a música toco meu sexo, minha buceta. Minha buceta molhada. Ela me proibia tocar minha perereca, tal como ela falava. Que mãe idiota eu tive.

    – Mãe, não é perereca. É buceta, fonte de prazer e vida!

    Pobre mulher que não conheceu seu próprio corpo. Adoro minha buceta, adoro sentir prazer e me tocar. Meu corpo pode ser feio, comparado ao que foi, mas minha vagina é poesia.

    – Mãe, fala comigo: bu-ce-ta, buceta, buceta, buceta. BUCETA, caralho, fala!

    – Mãe, se dizem que somos santos e a imagem de deus, meu corpo é santo, minha buceta é santa.

    – Mãe, a senhora não se diz tão correta e protetora? Que porra de proteção que a senhora me deu? Não viu que o seu namorado queria comer minha buceta de criança? Não me venha dizer que não posso tocar meu corpo, minha perereca. Se seu namorado e o vizinho podiam tocar minha bucetinha de criança, eu também posso e tenho esse direito adquirido por propriedade, é minha e faço com ela o que quero!

    Tanta santidade para quê? Santa falsidade e hipocrisia a sua, isso sim.

  • Um amor impossível – Capítulo III

    III.

    Hoje escuto The Cure, Lullaby.  Lembro quem fui. Lembro quem queria ser. Lembro meu corpo branco, as sardas no ombro, não era magra, não era gorda. Era gostosa. Hoje não estou assim, deixei a vida pesar e os quilos acumularem. Me lembro deitada no chão do meu quarto, na casa da minha mãe. Trancada, sem poder sair. Ouvia música e chorava. Fazia muito tempo que não chorava, faziam 30 anos. Chorei muito quando vi sua foto, mãe.

    Hoje sinto falta de ar, não é a pandemia que come o mundo. É alergia, uma puta crise alérgica. Igual a que você sempre teve e eu nunca tive. É a insatisfação do caminho que nossas vidas tomou? Acredito que sim, a diferença é que minha vida não é a eterna infelicidade que se tornou a sua. Eu busco meu espaço. Eu aprendi a dar limites.

    Mãe, o primeiro limite que quero dar hoje é em sua memória. Eu não sou culpada. Eu não fui culpada.

    Por muitos anos a criatividade foi um impulso vibrante na minha solidão. Fui uma criança esquecida e uma adolescente que gritava por liberdade, até que com 18 anos dei um basta e reivindiquei meu espaço e na faculdade de arquitetura iniciei a liberação do meu espirito. Fumei, bebi, dancei até cair. Raspei a cabeça, pintei o cabelo de vermelho. Escrevia e pintava, criava arte e uma vida que me tinham negado. Trepei. Noites de sexo e álcool. Era o principio do que desejava. Um mundo de criação histérica em uma vida interrompida.

    Hoje meu corpo não aguenta nem mais um cigarro. Puta falta de ar e que vontade de fumar!

  • Um amor impossível – Capítulo II

    II.

    Alguma vez você já quis ser outra pessoa?

    Eu sim, mas agora estou satisfeita com quem sou. Gostaria sim de mudar meu corpo, mas nada de cirurgias. Existe parte desse desejo que posso conseguir com dedicação e outra parte fica no sonho pois não tenho nenhuma intensão em fazer uma cirurgia plástica. O que quero? Quero um corpo parecido com o que tinha com 18 anos. O tempo me deu anos e quilos, para cada ano 1 quilo. Um absurdo, tenho 30 anos-quilos a mais.

    Decisão de hoje!!! Fechar a boca de imediato e emagrecer esses quilos-anos a mais.

    Lembro um dia, com 18 anos, andando por Copacabana com o Claudio, um amigo da faculdade que perdi contato com o tempo. Sempre que andávamos de um lado a outro  da cidade conversando sobre a vida, ele se posicionava atrás de mim, como um guarda-costas. Dizia que fazia aquilo para olhar minha bunda e seu movimento enquanto eu andava. Eu tinha vergonha, muita vergonha. Ele não sabia como aquelas palavras me punham nervosa e molhada. Eu ainda era virgem e tímida. Mas amava escutar o que ele me falava. Nos perdemos sem experimentarnos. Será que ele era tão bom como parecia ser? Sempre gostei dos carecas, o Claudio era careca por opção. Usava uma camiseta branca Hering e um jeans 501 da Levi’s, era como um uniforme. Normalmente eu estava com uma camiseta preta Hering e um jeans sem marca, não tinha dinheiro para um Levi’s.

    A única coisa que não tenho como recuperar, sem a tal da cirurgia é o peito. Ah, como eu admirava o meu seio. Me trancava no banheiro de frente ao espelho e olhava cada angulo daquele peito branco, sem marcas. Tocava e imaginava as mãos da mulher que até hoje não encontrei. Temos seios iguais, brancos, suaves… Pego, aperto e beijo. Sinto seu cheiro. Sinto seu corpo grudado junto ao meu, peito com peito e estremeço. Te beijo.

    Algumas vezes sonho com esta mulher, outras com alguns homens. A mulher é sempre a mesma, os homens mudam, nunca é o que tenho. Ando pela rua, me olham, me desejam, eu ignoro. Que homem me atrai? Não sei, sei que não é o que tenho em casa. Pobre, tenho pena, é um bom homem, mas não é o que me atrai. Nem fisicamente, nem intelectualmente. Pobre. Penso em separar, imagino como ele reagiria. Imagino que se suicidaria. Por hoje, não quero a vida que tenho. Pode ser que amanhã eu volte a querer, não sei. Por hoje, não quero nem o marido nem o filho, quero ser a mulher que desejei ser com 22 anos e que me foi proibido. Puta merda de mãe que roubou a minha vida. Puta merda de pai que me ignorou. Eles fizeram comigo o que a vida fez com eles.

    Fui obrigada a seguir as doutrinas doentias de uma mulher aprisionada em conceitos arcaicos de uma vida beatificada à um Deus que não existe.

    Fui ignorada por um pai que construiu uma família na mentira só para se salvar da sociedade e da família hipócrita, que julgava, criticava e ameaçava.

    Minha resposta a eles, por um curto período de tempo, foi me rebelar, ser quem eu devo ser. Escuto Depeche Mode e me lembro quem fui e me proibiram ser. Fui apenas o principio do que queria, depois com vontade sangrenta de ser aceita e amada, me rendi as normas dela e ao esquecimento dele, fazendo de mim uma reclusa da minha vital energia. Puta merda de família que me roubou a vida. Puta merda de machismo que transformou minha rebelde mãe numa mulher amarga e enlouquecida. Puta merda de machismo que obrigou meu pai a esconder sua homossexualidade para ser aceito como homem num modelo de sociedade que não aceitava o fora do padrão.

    Idiota o que fala que o machismo é ou foi prejudicial só a mulher. Toda e qualquer sociedade criada priorizando uma espécie é ruim. Feminismo e machismo não funcionaram no radicalismo, temos que buscar o equilibrio e a aceitação das espécies, do diferente, do indivíduo. Não sei que nome dar a isso. Tenho que pensar.

     

  • Um amor impossível – capítulo I

    I.

    Caiu a terra e o mar

    mundo invertido, humanos cegos.

     

    Cansei de ser quem não sou.

    Gritei, gritei, gritei.

    Mundo invertido, humanos mortos.

     

    Voei, voei por onde não me permitiam.

    Tenho céus, mar e terra a meus pés.

    Humanos mortos, sobrou eu e você.

     

    Te deito sobre a erva úmida.

    Tiro sua roupa, te vejo nua.

    Nua, só para mim.

    Te beijo, te cheiro, te mordo.

    Gritamos molhadas.

    Abraçada rolamos.

    Nos queremos, te quero mais, mais minha.

     

    Sua pele suave,

    seu pelo na minha cara,

    seu braço,

    sua mão em mim.

    Estremeço.

    Te desejo entre minhas pernas.

     

    Mordo seu peito, seu doce sabor me invade.

    Só meu gozo te completa.

    Só você me dá vida.

    Te quero aqui em silêncio, nua a meu lado.

     

    Quem é você?

    Quando te terei?

    Sonho com sua pele branca,

    seu corpo quente junto ao meu.

    Onde está você?