II.
Alguma vez você já quis ser outra pessoa?
Eu sim, mas agora estou satisfeita com quem sou. Gostaria sim de mudar meu corpo, mas nada de cirurgias. Existe parte desse desejo que posso conseguir com dedicação e outra parte fica no sonho pois não tenho nenhuma intensão em fazer uma cirurgia plástica. O que quero? Quero um corpo parecido com o que tinha com 18 anos. O tempo me deu anos e quilos, para cada ano 1 quilo. Um absurdo, tenho 30 anos-quilos a mais.
Decisão de hoje!!! Fechar a boca de imediato e emagrecer esses quilos-anos a mais.
Lembro um dia, com 18 anos, andando por Copacabana com o Claudio, um amigo da faculdade que perdi contato com o tempo. Sempre que andávamos de um lado a outro da cidade conversando sobre a vida, ele se posicionava atrás de mim, como um guarda-costas. Dizia que fazia aquilo para olhar minha bunda e seu movimento enquanto eu andava. Eu tinha vergonha, muita vergonha. Ele não sabia como aquelas palavras me punham nervosa e molhada. Eu ainda era virgem e tímida. Mas amava escutar o que ele me falava. Nos perdemos sem experimentarnos. Será que ele era tão bom como parecia ser? Sempre gostei dos carecas, o Claudio era careca por opção. Usava uma camiseta branca Hering e um jeans 501 da Levi’s, era como um uniforme. Normalmente eu estava com uma camiseta preta Hering e um jeans sem marca, não tinha dinheiro para um Levi’s.
A única coisa que não tenho como recuperar, sem a tal da cirurgia é o peito. Ah, como eu admirava o meu seio. Me trancava no banheiro de frente ao espelho e olhava cada angulo daquele peito branco, sem marcas. Tocava e imaginava as mãos da mulher que até hoje não encontrei. Temos seios iguais, brancos, suaves… Pego, aperto e beijo. Sinto seu cheiro. Sinto seu corpo grudado junto ao meu, peito com peito e estremeço. Te beijo.
Algumas vezes sonho com esta mulher, outras com alguns homens. A mulher é sempre a mesma, os homens mudam, nunca é o que tenho. Ando pela rua, me olham, me desejam, eu ignoro. Que homem me atrai? Não sei, sei que não é o que tenho em casa. Pobre, tenho pena, é um bom homem, mas não é o que me atrai. Nem fisicamente, nem intelectualmente. Pobre. Penso em separar, imagino como ele reagiria. Imagino que se suicidaria. Por hoje, não quero a vida que tenho. Pode ser que amanhã eu volte a querer, não sei. Por hoje, não quero nem o marido nem o filho, quero ser a mulher que desejei ser com 22 anos e que me foi proibido. Puta merda de mãe que roubou a minha vida. Puta merda de pai que me ignorou. Eles fizeram comigo o que a vida fez com eles.
Fui obrigada a seguir as doutrinas doentias de uma mulher aprisionada em conceitos arcaicos de uma vida beatificada à um Deus que não existe.
Fui ignorada por um pai que construiu uma família na mentira só para se salvar da sociedade e da família hipócrita, que julgava, criticava e ameaçava.
Minha resposta a eles, por um curto período de tempo, foi me rebelar, ser quem eu devo ser. Escuto Depeche Mode e me lembro quem fui e me proibiram ser. Fui apenas o principio do que queria, depois com vontade sangrenta de ser aceita e amada, me rendi as normas dela e ao esquecimento dele, fazendo de mim uma reclusa da minha vital energia. Puta merda de família que me roubou a vida. Puta merda de machismo que transformou minha rebelde mãe numa mulher amarga e enlouquecida. Puta merda de machismo que obrigou meu pai a esconder sua homossexualidade para ser aceito como homem num modelo de sociedade que não aceitava o fora do padrão.
Idiota o que fala que o machismo é ou foi prejudicial só a mulher. Toda e qualquer sociedade criada priorizando uma espécie é ruim. Feminismo e machismo não funcionaram no radicalismo, temos que buscar o equilibrio e a aceitação das espécies, do diferente, do indivíduo. Não sei que nome dar a isso. Tenho que pensar.

Dicen que está de moda que los escritores cuenten sus propias historias en libros, dicen que les faltan ideas. No lo creo. Y si creo que muchas veces hace falta reflexionar sobre lo que vivimos, de dónde vinimos y lo que hicimos. Y por qué no hacerlo poniendo en el papel? Y, si sale una buena história por qué no publicarla?
Cuánto nos cuesta vivir? Cuánto nos cuesta ser mujeres en un mundo que aún sigue reglas paternalistas? Recuerdo situaciones por las que pasé y pregunto me; cuál el coste que pagué para lograr el éxito o lo que deseaba? Cuántas veces fui recordada por mi función y el apellido corporativo (el nombre de la empresa en que trabajaba), y no por mi nombre propio? Cuántas veces fui más una entre los hombres, cuando en realidad era la jefa o la persona que definía la relación comercial? Cuántas veces nos pusieron a prueba, por nuestras invisibles faldas? Mucho logramos a lo largo de nuestra história, como mujeres, pero aún nos queda una larga trayectoria. La mujer cambiará la história, o a lo menos cambiaremos nuestras histórias. Temos que hablar más sobre nuestra situación en la sociedad y para eso tenemos que leer y escribir más sobre nuestras experiencias en este mundo. Llego a conclusión que es el momento de contar la historia de mi madre, será una escrita muy dura, quizá nadie la quiera leer, no somos personalidades reconocidas dentro de esta sociedad. Nuestras histórias tienen mucha dolor, dolor de mujeres incomprendidas en sus famílias y entre sí. Nuestras histórias culminan con la locura de una mujer que deseó ser lo que no le fue permitido y finaliza con la culpa de otra que no ha podido ser lo que la sociedad esperaba de ella. Quizá sea el momento de contar esta história.
Muitos desejam a riqueza, otros a lua, o sol e o amor. Roseana Murray deseja borboletas amarelas, trocar de cor, cantar, morar numa lua e, entre tantos desejos, a paz e ser dona de uma papelaria. Ela não se cansa de fabricar desejos, como cada um de nós.


